O espectador que pretende assistir um filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier tem de estar preparado para entrar em universo psicológico perturbado e doentil, e enfrentar os seus efeitos colaterais após o término do filme. Os filmes deste cineasta costumam ser taxados de polêmicos e provocativos. Na verdade, eles vão bem além disso…
Lars Von Trier realiza um cinema muito diferente do estilo austero vindo da Dinamarca dos tempos de Carl Theodor Dreyer, tendo transitado pela produção de curtas-metragens, filmes publicitários, videoclipes musicais e telefilmes. Seu talento foi revelado no Festival de Cannes com o inusitado The Element of Crime (1985), trabalho que o transformou no queridinho dos festivais. Seu comportamento excêntrico (não andar de avião, fugir das entrevistas, raspar a cabeça, brigar com atores, inventar mentiras), começou a transparecer em suas obras posteriores. Em Europa (1991) denunciou a eterna possibilidade da Alemanha (e da Europa) voltar a se render aos “encantos” do Nazismo. Já em Ondas do Destino (1996), usou amplamente a câmera na mão, fazendo movimentos de provocar enjôo. Seria, no entanto, com a liderança do Movimento Dogma 95, que o cineasta se tornaria o centro das atenções do meio cinematográfico, ao propor os princípios fechados do Dogma: 1) Filmar sempre em locação, sem cenários; 2) Usar sempre o som ambiente, sem inserção de trilha sonora, nem pós-produção; 3) A câmera deve estar sempre na mão, sem tripé; 4) O filme deve ser colorido e em 35mm; 5) Não é permitida a utilização de iluminação artificial, nem de filtros ou efeitos ópticos; 6) Não são permitidas cenas de ação superficial, como violência gratuita, armas e etc; 7) O filme não deve ter corte de tempo, flashback, ou qualquer sugestão de subversão da ordem temporal. Ou seja, é tudo aqui e agora; 8) O diretor não deve ser creditado.
Desde o Movimento Dogma 95 em que apresentou ao mundo Os Idiotas (1998) , passando por Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), Lars Von Trier tem investido em trazer uma sensação de mal estar para os espectadores. O que não é algo negativo, mas sim necessário. Voltando-se contra o cinema hollywoodiano e o cinema autoral europeu, o cineasta acredita que uma “terapia de choque” seja necessária para tirar os espectadores do estado letárgico que se encontram, devido ao entretenimento alienante de Hollywood e ao intelectualismo do cinema autoral europeu. Ao propor situações cotidianas e contemporâneas, Lars Von Trier tira as máscaras da sociedade e mostra a face oculta das pessoas. Em Os Idiotas retrata um grupo de burgueses que, inicialmente e por brincadeira, se passam por “idiotas” (termo pejorativo e politicamente incorreto para designar os doentes mentais) até que são colocados frente a frente com as pessoas reais que tem essa doença. A partir daí o grupo começa a se desintegrar, já que depois de criticarem os “outros” por se sentirem incomodados com a presença dos “idiotas” (antes repreentados por eles), agora enfrentam os dilemas e preconceitos, não querendo encarnar na vida real os papéis que representaram na brincadeira, com medo de perderem tudo o que possuem (estabilidade familiar, profissional, financeira e social). É com este filme que o universo psicológico de Lars Von Trier começa a se delinear de forma mais profunda em sua filmografia.
O turbilhão de sensações e sentimentos, que vão da emoção, passando pelo desconforto até a postura dos nervos a flor da pele, antes de chegar ao público é exercitada sobre os atores, que passam pelos estranhos métodos de filmagem do cineasta. A partir de Dançando no Escuro, um filme musical americano, bem diferente dos padrões clássicos hollywoodianos, Lars Von Trier leva quase a loucura a atriz/cantora Björk, que não aguentando o stress abandona por um tempo os sets de filmagem. Esta relação de amor e ódio que o cineasta desenvolve com os seus atores transparece na comovente história da protagonista cega Selma.

Dogville
Os picos emocionais e a proximidade de um estado de loucura ficam ainda mais acentuados com Dogville, um filme ambientado nos Estados Unidos da década de 1930, embora filmado num gélido e fechado estúdio da Suécia. Sem nunca ter pisado nos EUA, da mesma forma que os estúdios de Hollywood jamais sentiram a necessidade de filmar nos países em que ambientavam suas histórias, Lars Von Trier nos apresenta um manifesto antiamericano, que mostra o outro lado – nada simpático e alegre - do american way of life. Mais uma vez investindo sua trama em desmascarar a farsa e hipocrisia da sociedade (no caso a americana em tempos de crise econômica), Trier apresenta como uma cidade interiorana, que configura-se num modelo exemplar da sociedade americana, violenta – de todas as formas físicas e mentais possíveis – a personagem interpretada, de forma magistral, por Nicole Kidmann. Aliás, a própria atriz, em determinado momento das filmagens (conforme registrado no documentário Dogville Confessions) pede para o cineasta parar de investir em tantas cenas de abuso sexual, pois além delas poderem estragar a mensagem do filme, nem ela e - certamente - nem o público aguentariam mais tanto sofrimento e tortura psicológica. Todos os atores ressaltaram que aquela experiência fora infernal e que certamente modificaria as suas vidas. Da mesma forma que Björk, Nicole Kidmann e Lauren Bacall provavelmente não voltarão a atuar nos filmes do cineasta dinamarquês.
Mas após recuperar brevemente a trajetória e filmografia do cineasta, o que esperar, então, de O AntiCristo? Indubitavelmente, não é um filme de entretenimento para ver com toda a família ou com namorada, para não correr o risco de alguém xingá-lo por ter passado por uma experiência de tortura psicológica. O filme configura-se como um terror psicológico que vai, a partir do sexo e da nudez, chocar o espectador. Mas, as pessoas rapidamente podem se perguntar: como o sexo e a nudez podem trazer tanto incômodo, se, no cinema pós-modernos, estes são elementos recorrentes para alavancar a bilheteria de um filme?
A partir do visionamento do prólogo do filme, filmado em preto e branco, com uma filmagem em câmera lenta e trilha sonora que eleva a alma, somos apresentados a uma cena de relação amorosa bastante tórrida de um jovem casal, que terá como desfecho uma tragédia: aproveitando este momento de descuido dos pais, o filho foge do cercadinho e vai até a janela, onde acaba caindo acidentalmente. Ou seja, o sexo retratado de forma poética, repreentando o estado de felicidade do casal, se transformará em uma doença física e psicológica, que castiga os pais com a morte do filho. Dissociado de seu valor positivo e excitante, o sexo será na vida deste casal, interpretado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, uma espécie de maldição marcada por muitos atos de ódio e de violência.

A agonia do casal em O AntiCristo
O ingrediente de terror psicológico aumentará quando o marido, que é um psiquiatra, resolve cuidar ele próprio da angústia e da depressão da esposa após a perda do filho. Enquanto homem, ele se mantém frio diante da tragédia, enquanto que a esposa, toda emotiva e atormetada, se culpa pelo trágico desfecho. Será na floresta, retratada de forma escura e assombrosa, o local onde onde terror residirá em suas piores formas e manifestações (animais em decomposição, figuras distorcidas e maléficas), oprimindo as personagens e criando um estado de permanente tensão face ao desconhecido. As forças ocultas da natureza modelam o estranho comportamento da esposa, que, cada vez que lembra que o seu marido é o psiquiatra e a estadia na casa da floresta representa uma tentativa de cura, começa a ter ações descontroladas, somente acalmadas com ataques sexuais e físicos ao marido, realizados como forma de apaziguar o seu coração e angústia, assim como para punir o marido. Muitos dos métodos de tortura serão recuperados das experiências realizadas durante a Idade Média, tema avidamente estudado pela esposa para a sua tese de doutoramento, nunca concluída. Por isso, as forças ocultas e bruxaria, certificadas pela História, ganham um significado tão especial na condução da trama.

O AntiCristo
Ao final inesperado do filme, os espectadores são deixados num estado de transe, atônitos e perplexos, incapazes de compreender imediatamente o real significado da intensa experiência vivenciada durante a exibição do filme. O único alívio é que o filme terminou. Mas e o depois… a única certeza: nunca mais seremos os mesmos.

Lars Von Trier e Charlotte Gainsborg durante as filmagens de O AntiCristo

















