BASTARDOS INGLÓRIOS: A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL DE QUENTIN TARANTINO
A caminho do meeting da comunidade A-HA em São Paulo encontrei uma amiga da faculdade, recém-saída do cinema, que ao apresentar-me para sua amiga, disse que eu era especialista em cinema nazista. Logo em seguida, enquanto especialista, fui indagado se já havia visto o novo filme de Quentin Tarantino: Bastardos Inglórios e o que achara dele. Por coincidência, naquela semana mesmo, ao trabalhar com o cinema pós-moderno de Quentin Tarantino, em especial sua obra-prima Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, EUA, 1994), havia traçado alguns paralelos entre ambas as produções. No entanto, considero que Quentin Tarantino não inovou o seu estilo de fazer cinema, mantendo a mesma fórmula – de sucesso – apresentada em Pulp Fiction.
Antes mesmo de tecer meus comentários a minha amiga e sua companheira, elas falaram euforicamente da experiência de ter assistido aquele filme. Fato compreensível, tendo-se em vista de serem judias e sentirem-se vingadas. A vingança é um ponto importante para compreender este filme. O próprio Brad Pitt havia dito que a sua interpretação e o filme eram superiores a performance de Tom Cruise e ao filme Operação Valquíria (Valkyre, dir. Bryan Singer, EUA/Alemanha, 2008). No caso desta outra produção, o Führer Adolf Hitler triunfa, conseguindo sobreviver ao atentado dos opositores militares do regime nazista. Embora corretamente histórico, isso ficou travado na garganta do público. Agora, naquele filme, o que não salvou mesmo foi a precária interpretação do coronel Claus von Stauffenberg, vivido por Tom Cruise.
Após esta conversa voltei a repensar a minha posição apática frente ao filme. Em primeiro lugar, deve se destacar que é um filme de guerra bem diferente da imensa quantidade de produções hollywoodianas dedicadas ao tema da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado temos o protótipo (amplamente divulgado por Hollywood) do nazista perverso, representado pelo Coronel Hans Lada ( interpretado de forma magistral por Cristoph Waltz), em especial na excelente sequência incial do filme em que “visita” uma família de camponeses franceses, para descobrir se ela escondia judeus, em plena Segunda Guerra Mundial; por outro lado inova ao mostrar que os soldados americanos não foram sempre os mocinhos que tinham a única missão de salvar o mundo. No filme, Tarantino centra a ação num grupo liderado por Aldo Raine (Brad Pitt), que sente prazer em prender, matar e marcar (com o símbolo da suástica na testa, para sempre serem identificados enquanto adeptos de Hitler) soldados nazistas. Este grupo clandestino, tem métodos bastante diferentes da maioria dos soldados americanos, e por isso mesmo, são temidos pelo exército nazista.
Em linhas gerais, o filme recupera uma série de recursos cinematográficos popularizados por Tarantino, principalmente a partir de Pulp Fiction, tais como: montagem do filme a partir de capítulos, com títulos dos temas que serão apresentados, e disponibilizados fora de ordem cronológica, brincando com diferentes pontos de vistas e perspectivas para introduzir as personagens no contexto, uma trilha sonora pop distante do estilo musical do período histórico retratado, e uma série de flashbacks que recapitulam determinadas sequências e sentidos, confundindo o público e quebrando a já fragmentada linearidade dentro de cada capítulo do filme. Devido ao já notório conhecimento enciclopédico da história da cultura audiovisual que o cinéfilo Tarantino possui, o filme é repleto de referências e imagens clichês, pertencentes a outros gêneros cinematográficos, além de um grau de violência – por vezes gratuita – acentuada numa montagem que lembra a estética de videoclipe.
Dentro desta grande homenagem ao cinema que Tarantino produz em Bastardos Inglórios, temos mais uma supresa, que deixa o público em estado de choque. Até metade do filme, acreditamos que se trata de uma reconstituição histórica fidedigna, ao estilo de Operação Valquíria. Mas Tarantino, traz para a cena, o Ministro da Propaganda Nazista, o Dr. Joseph Goebbels, que vem a Paris para estrear um novo filme de propaganda nazista, que exaltaria um dos grandes heróis de guerra. Para tornar ainda mais interessante a história, Adolf Hitler e os mais importantes líderes do regime nazista se reuniram na estréia do filme num cinema francês, dirigido por uma judia disfraçada. Neste momento temos dois filmes, o de Tarantino que assistimos e o que os nazistas assistem dentro da sala de cinema. Ambos mostram as mesmas imagens de crueldade e barbaridade. Neste novo ”Dia D”, os crimes dos carrascos nazistas são igualados aos dos judeus “sanguinários”, ávidos por colocar em prática um plano para exterminar o Führer Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Hermann Göring e demais hierarcas do regime nazista. [SPOILER] O plano dá certo e se tivesse acontecido realmente teria poupado muitas mortes de inocentes no Holocausto e na Segunda Guerra Mundial. No entanto, a sensação de vingança é incômoda, pois os heróis realizam os mesmos crimes e atrocidades que os vilões nazistas. A vitória contra o nazi-fascismo é conquistada, pagando-se com a mesma moeda. O tom de violência “videoclíptica” e ironia do cineasta prevalecem. Por tudo isso, o filme cumpre, com eficácia, duas funções: nos dá uma sensação de vingança em queimar todos os líderes nazistas de uma vez, como eles fizeram com 6 milhões de judeus e outras vítimas do Holocausto. Por outro lado, realiza uma interessante crítica ao cinema de guerra produzido por Hollywood, onde os heróis da história não são mais os simpáticos e benevolentes soldados americanos, mas sim um grupo de bastardos inglórios, que seriam os responsáveis por libertar o mundo do nazi-fascismo na realidade virtual criada por Quentin Tarantino. Tudo não passa de uma grande provocação de Quentin Tarantino e Brad Pitt frente a visão maniqueísta de mundo, perpetrada por Hollywood e aceita pelos espectadores. E aí, os espectadores vão encarar?

Estariam Brad Pitt e Quentin Tarantino provocando o público?